4 de outubro de 2017

O sonho acabou

       


       Recentemente, ontem de manhã pra ser mais exata, me deparei com alguns burburinhos e alvoroço na internet por conta de algo relacionado ao programa MasterChef Brasil. Minha surpresa inicial que o caso não estava relacionado ao novo episódio que seria liberado, pra quem não sabe todas as terças-feiras estão passando novos episódios da nova temporada de MasterChef Brasil Profissionais. No entanto, a repercusão estava relacionada a última temporada dos cozinheiros amadores, com uma das cozinheiras participantes que não demorou muito pra sair do programa, Caroline Martins.
           Em sua página do facebook, Caroline postou uma foto em frente ao prédio de uma das unidades da escola de gastronomia da Le Cordon Bleu, esta localizada em Londres. Acompanhada da foto tinha uma descrição/legenda/indireta/textão que, em minha humilde opinião foi no mínimo desnecessário. Ela escreveu o seguinte:




Eu tinha um sonho: estudar na melhor escola de gastronomia do mundo, a Le Cordon Bleu. Por este sonho, este ano, me inscrevi em um reality show. Quando fui eliminada um dos jurados me disse "Caroline, o seu sonho acabou." ; A outra jurada, se referindo aos meus quatro títulos acadêmicos, falou "Você não precisa de um título a mais, você já tem muitos." ; Pois bem, neste momento estou em frente ao prédio da Le Cordon Bleu em Londres esperando pela minha primeira aula, e cá estou refletindo sobre sonhos. Pois afinal, onde já se viu uma mulher com mais de 30 anos querer mudar de carreira? Como ousa desperdiçar 10 anos de formação para se tornar estudante novamente? Os trinta é o período para casamento, ter filhos, comprar casa, formar família, pagar previdência privada, entre outras coisas a mais. A sociedade te pede para fazer uma escolha de vida aos 17 anos (vestibular), e espera que você carregue esta escolha até o túmulo. Te perguntam "está trabalhando?", "comprou carro novo?", "quando chega o bebê?", porém não te perguntam "você está feliz?". Estas imposições se transpareceram na minha participação no programa, pois eu fui, em quase todos os episódios, questionada sobre abandonar minha função como pesquisadora para seguir um sonho. Hoje estou aqui vestindo o meu dólmã, de caderno e lápis na mão, e respondo:

* Não, o meu sonho não acabou. Ele só está começando.
* Não, os títulos que possuo não são suficientes, e talvez todos os títulos que eu conseguir conquistar nunca serão suficientes. Há sempre espaço para aprender e se aperfeiçoar.
Não dê ouvidos aos que querem matar os seus sonhos, pois afinal, meus amigos, como já dizia Tolkien: "Um único sonho é mais poderoso do que mil realidades." 

        O texto é no mínimo polêmico por diversas razões. Eu, sinceramente, fiquei muito feliz por ela quando vi apenas a foto, mas quando parei para ler este texto meu sentimento foi de tristeza. Pra quem não lembra, no episódio que teve de repescagem no programa, Caroline foi, no mínimo, muito desrespeitosa ao participar, aparentemente, contrariada daquele episódio, fazendo pouco caso da situação toda. Achei que estando na posição em que estava, dizendo que estava realizando um sonho, como mencionado no texto, ela teria apenas agradecimentos, mas não: usou da situação para mais uma vez repudiar o programa a que tanto deu visibilidade a ela, com indiretas nada delicadas.            Mostrou que ainda guardava rancor do programa e, principalmente, dos jurados.
         Acredito que o texto estava de certa forma mascarado e, por isso muitos aplaudiram o texto, pois focaram na parte em que ela fala sobre realizar sonhos. Realmente, é muito bonito, admirável e corajoso da parte dela, deixar uma carreira construída de lado e voltar a ser estudante, sair da zona de conforto e encarar coisas novas. Mas isso, felizmente, tem sido cada vez mais comum. As pessoas que querem mudar estão se sentindo cada vez mais à vontade e inspiradas por tais pessoas a fazerem essa mudança. Isto, porém, não desvalida todas as outras pessoas que não mudam, não são felizes em seus trabalhos e nem realizadas neste setor, pois muitas vezes não é uma mera questão de coragem, mas sim de prioridades. As vezes nossa prioridade e felicidade é cuidar da nossa família e não focar em nossa profissão, carreira, no quanto a mais de dinheiro estamos fazendo com coisas que gostamos e, não há nada de errado com isso.
         Honestamente, meu problema com este texto foi ela usar de argumento a realização de um sonho para atacar a opinião de jurados renomados, que são profissionais da área, muito mais experiêntes que ela. Ela disperdiçou uma oportunidade de crescer com os comentários feitos. Ninguém quis matar o sonho dela, pelo contrário, queriam mostrar a ela que a realidade do mercado gastronômico é difícil, é dura e ela precisa estar preparada. A frase dita por Fogaça "Seu sonho acabou" estava incompleta em seu texto, a frase completa era "Seu sonho acabou no Masterchef", o que significa que nenhum momento els desacreditaram que ela era uma boa cozinheira e podia fazer isso bem. Mas aparentemente foi tudo que ela conseguiu escutar. 
          Ao se incomodar com o comentário "Você não precisa de um título a mais, você já tem muitos." feito por Paola Carosella acredito que reflete a necessidade dela não de satisfazer seu sonho de ser chef de cozinha, mas sim suas próprias expectativas sobre si, para provar algo a si mesma. Não cabe a mim medir os sonhos da Caroline, mas acredito que ninguém chega até o doutorado por tabela, pois só quem passa por esse trajeto sabe o quão árduo é e precisa de muito amor à carreira acadêmica e de pesquisa pra persistir na área e chegar até o fim. Assim, não acho justificável o argumento dela sobre a decisão tomada aos 17 anos, sendo que para chegar ao doutorado são cerca de mais 12 anos de estudo. A impressão que me passa é que ela tem sonho de ter títulos, de provar para o mundo que pode fazer coisas admiráveis, afinal, convenhamos que quem quer cozinhar dá um jeito e não precisa de um curso na Le Cordon Bleu pra atingir isso. Fica ainda mais claro pra mim quando ela afirma "Não, os títulos que possuo não são suficientes, e talvez todos os títulos que eu conseguir conquistar nunca serão suficientes. Há sempre espaço para aprender e se aperfeiçoar". Sonhos ultrapassam títulos, diplomas, nomes, reconhecimentos. Aprender é um processo diário, e não precisa estar na melhor escola do mundo, basta permitir-se aprender com a vida e estar aberto para isso. 
            A reflexão que deixo aqui é pra reafirmar que sim, todos devem sonhar! Sonhar grande, sonhar e se esforçar pra atingir os seus sonhos. No entanto, sonhe sem pisar no que você deixou pra trás algum dia, sem indiretas e sem menospresar pessoas que no fundo só queriam te ajudar a conquistar este sonho. Sonhe e realize sendo uma pessoa humilde, respeitosa e grata por tudo que te aconteceu. Desse jeito, você chegará além do que um dia sonhou pra sua própria vida!

PS: Minha intenção com este texto não é faltar com respeito a ex-participante, mas sim propor uma reflexão sobre sonhos e gratidão. Espero que tenham entendido o foco.

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